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Mostrando postagens de janeiro, 2017
Ou uma coisa    Ou outra      As duas          Ou nenhuma

Bauman se foi. O amor líquido, não

Olho para nós agora. 70% água, em Terra azul. Estamos pensando que talvez ser solvente universal, ser moldável mas principalmente ser capaz de moldar (até as firmes rochas), não seja de todo o que castiga e sim o que salva.  Movimento incessante que trás barulho de mar, trás correnteza e nenhuma barragem é capaz de segurar, se não transborda. E estamos nos dispondo a transbordar. Se for preciso mudar de estado, se for preciso insistir até que rompa, se for preciso fluir apressada, se for preciso ir e voltar, se for preciso acalmar, se for preciso envolver, se for preciso hidratar, se for preciso refrescar, se for preciso lavar. Nunca secar. Precisamos do movimento para existir, precisamos ser o que nos constitui quase que por inteiro para que flua,  Nós.  Ainda estamos espantados com o solúvel que sempre existiu, que nos faz bombear e naturalmente bambear, que é do amor em seu estado mais pleno e único que só é único porque é da natureza mutável, capaz de nos ...
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lembrança de outubro de 2016 - Glasgow/Escócia

Voar é lindo, pousar é a minha sensação preferida. Poucas vezes na vida senti emoção tão aguda e de uma angústia boa, necessária, rendida e apaixonada. Olhar todas as construções irregulares, apertadinhas, desniveladas e que reluzem noite e dia, mais conhecidas como favelas, fez meus olhos de visão meio borrada pela miopia, apertarem-se um pouco mais a medida que neles refletiam tamanha luz. Fiquei louca pra que o avião pousasse logo, pra eu enfim experimentar o chão, meu chão, minha estabilidade, minha base, minha casa. Eu tenho o simbolo do elemento terra tatuado na nuca e um mapa astral com predominância do mesmo só pra assinar embaixo a proximidade que tenho por/com ele, sou constituída dele e o sinto com o corpo cada vez mais desnudo de tanto que isso me pertence. Estava mais em mim, eu senti as possibilidades debaixo dos meus pés a medida que eu podia dar todos os passos adiante, todos os passos seguros e bem acolhidos por aquele lugar. Estar em casa é ter prazer de pertencer a ...
uma vez me mandaram um texto. um texto printado de uma página no instagram. bem... eu li aquele texto e senti um nó na garganta porque quem me mandou o texto tinha acabado de se despedir de mim, a gente se despediu porque eu ia pra um lado da cidade e ela pra outro. isso não é uma metáfora do amor que se foi, é apenas um quadro do dia-a-dia: ela ia trabalhar e eu também. eu estava bem, a gente transou, a gente dormiu poucas horas mas satisfatoriamente, a gente se beijou e a gente se despediu. recebi esse texto e o abri no caminho, quase chegando. é ruim, muito ruim você abrir uma conversa despretenciosa (eu, despretenciosa) de whattsapp e se deparar com um texto daquele. era cruel demais. era de uma conta chamada @textoscrueisdemais e eu não pude deixar de notar isso no final do print, estarrecida, sem entender, sentindo minhas camadas internas se revirando. reli aquele texto algumas vezes. cruel e bem escrito, doía, mas era de tão bom gosto tentar dar um ponto final em alguma coi...
a criança da imagem a seguir sempre se pegava olhando de frente para ela mesma, profundamente morando nos olhos e no instante do dia que havia tirado aquela fotografia. não gostava de fotografias, não recordava aquele instante em linearidade, mas reconhecia aqueles olhos embora sempre parasse para encará-los. as paredes de tijolos laranja de cimento derretido e duro aparecendo por entre eles, compunham o museu que era sua casa. uma moldurinha e uma paredona, só depois de muitos anos foi entender que Monalisa partilhava da mesma realidade em algum lugar na França. e o olhar. olhar de imensos olhos submissos e suspensos, enclausurados, derretidos, sempre derretidos, quase sempre arrastados e apostos. de frente a frente e de olho a olho, a ponta leste ou a ponta oeste do corpo podem ser atingidas e nada, mas nada mesmo, aqueles olhos são capazes de ocultar - para quem conseguir ver.  olha bem pro olho dessa criança, vê se não tem quase nada ou tudo que você quiser enxergar.  ...
minha salvação não vem lá de cima, ela vem de debaixo - de onde piso minha cabeça e deito meus pés
tem dias que a gente não dorme, que é pra não sonhar.
Tu chegou na minha casa um moleque, eu te olhei de roupa caqui e pensei que talvez eu devesse começar a deixar você me dizer sobre tuas escolhas a partir dos caminhos de cogumelos e traças por onde você passou. Eu tinha curiosidade no seu corpo e só por isso queria te engolir - "só a antropofagia nos une". A atitude de uma mulher que entende de motor de carros, uns peitos lindos que, sei lá, eu olhava pra não reparar. Precisava te olhar, você não merecia só reparação. A impressão lúcida de que eu e você nos encontramos e não foi pra dizer, foi pra faiscar. A gente faísca mesmo mas não a ponto de queimar, a carne tá crua e porra, eu senti isso na sua boca. Abotoa o último botão da roupa que te desnuda e se descasca depois, em cascas. Eu sinto você descendo pelo tubo digestivo e é tanta coisa pra ficar comigo que eu entendo o que é não ter perto e ter dentro. Vivemos em um eterno verão de tempestades fortes que faz sacodir os ventos, quentes. Tem hora que a gente não sabe nem ...
Dai tu foi dormir e me deixou de cara pro corredor. Foda é que o tempo de intervalo morno não aterrou o que eu cultivei molhado contigo, cheio de vida. Gente pra caralho no mundo e eu intrigada no teu proceder, num inferno de instante que mais separa que une, num sono que não vem na hora certa, num beijo que as vezes eu tenho medo de repetir pra não perder. Vou acender meu incenso do sentinela, do ar de mistério e tesão que já coloca a gente nessa cama de terceira dimensão, com o corpo colado, cheio de espinhos, todo suado, junto e tensionando.  Tô sentada nesse canto pensando nesse vão, em você.

O mal que é

Eu já sei como sei sempre que vou criar um caminho confuso pra me perder enquanto me preocupo em só me perder mais, nunca achar. Sei exatamente pra onde e por isso mesmo não vou por lá. É cansativo e penoso saber, saber o que fazer, então eu me faço em perda mesmo, em caos, pra me refazer em soluções tão confusas que só me repelem da facilidade. Eu não quero que seja fácil. Porque eu sei o caminho que eu vou fazer; esse de aflição e busca que só faz esperar, depois surta, depois pensa em não querer e sente falta, anula possibilidades, procura com orgulho na língua e volta pra comemorar antes de cair lágrimas de arrependimento que sou cética demais pra acreditar que exista nesses instantes que só tenho o agora pra pensar que você vai voltar a me procurar na hora que quero. Agora. Eu quero. Você não busca porque eu não quero. Facilidade eu não quero. Eu não sei o que você quer. Aliás, sei sim... O que é?  O nosso mal é querer o que não existe.