sábado, 17 de setembro de 2016

Raspas

Ela apurou as unhas, estavam sujas de cera das velas pretas que tentou raspar da mesa de madeira depois de derreterem, todas, fazendo parte de um único despacho. O trabalho havia sido feito e só restava agora esperar pouco (porque isso não demora) pelas notícias começarem a circular e os sorrisos satisfeitos brotarem nos cantos de lábios, bem como o dinheiro, a segunda metade, justo por um trabalho bem encaminhado. 
Gostava de ver as pessoas satisfeitas. Satisfação é uma sensação engraçada, ela pensava enquanto analisava as unhas. Bem engraçada de se observar. Ela nunca havia se sentido satisfeita, nem depois de uma foda bem feita. Bem... Exceto umas duas, em que sentiu que se não fosse para fazer doer as vísceras, não pararia. Então sim, ela já experimentou a sensação depois de parar. Não sentiu-se bem com ela, nem sentiu-se de todo mal, a satisfação ocupou um lugar nela bem possível. Na verdade, era nisso que ela não via inclinação - na facilidade. 
Recolhia os elementos do ritual com todo cuidado do que representava quase que um corpo sem vida, moribundo, antes habitado por energias densas que agora circulavam em outros corpos. Ela se foi, a fumaça das velas, sabe-se pra onde, através de quem, motivada pelo que e por onde passou. Facilidade. Ela nem ousava lançar olhares repressores para a atitude nem para quem fazia uso dela, conhecia a força daquilo com as próprias mãos - mais especificamente unhas, sempre sujas. Sentir e apenas saber que a facilidade nunca lhe pertenceu, que a satisfação não era mérito seu. 
Passava dias circulando o corpo nada esguio, meio sem cor, semi recolhido mas sempre atento, naquele lugar. Pessoas saiam e entravam pela porta de madeira maciça e ela, estava quase sempre com algum recipiente de barro nas mãos quando cruzava com elas. Repondo comida, cuidando das oferendas, mudando os lugares, ou tratava-se apenas de velha mania mesmo, afinal ainda que não estivesse segurando nada, era sempre essa a impressão que passava. Recipientes de barro sempre se encaixavam bem em suas mãos, ainda que de passagem, elas estavam sempre prontas. 
Aquela sujeira não parecia sair mais de entre a unha e a pele dos dedos, era muito trabalho, muito o que limpar. Talvez se fosse menos preocupada em dar conta de tudo as unhas estivessem mais cuidadas. Bobagem! Um pouco menos sujas, as unhas continuariam sendo um lugar propenso a que se preocupar. Tentar tirar os resquícios das velas escuras só a fazia acreditar que seu maior trabalho era limpar e se não fosse para fazê-lo necessário, preferia nem se sujar. 

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