terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Mulheres, dispam-se!

Foi mais de uma vez. Eu lembro como se fosse hoje os recortes estáticos que tenho em minha cabeça como fotografias, que fiz questão de guardar em uma das gavetas da memória durante anos. E meu corpo foi crescendo, ganhando forma, volume. Os seios cresciam e eu me curvava, sentava na cadeira como se quisesse me esconder e dormia em posição fetal, chupando o dedo polegar da mão direita. Eu retornava para o útero todas as noites, era desproteção, era medo. 
A progenitora, com quem dividi muitos dias de vida, era rude, precisa, atenta. Me disse algumas vezes algo sobre homens, seus perigos e de como tratavam meninas e mulheres que se sentavam de certa maneira, que tratavam de certos assuntos, que se comportavam de um jeito ou outro.  O homem que, pelo protocolo, eu deveria chamar de pai era mal falado, era culpado de abandono, tratava as mulheres como se fossem nada. Tratou-nos talvez como nada, eu e ela. Ela, a mulher mais forte e ao mesmo tempo submissa que conheci.
Eu só fazia encolher-me. Meu corpo era alvo de olhares que me penetravam com tanta precisão e violência que até hoje os sinto, olhares pelos quais nenhum corpo de delito seria capaz de provar nada. Vítima eu era do silêncio, então. Até que tocaram meu corpo, esse corpo que a essa altura repelia contato, que não sabia diferenciar carinho de assédio e que não sabia se existia diferença. Estava tudo muito misturado, mas eu resolvi dizer. Criança fala como sabe, mas agradeço aos céus por ter sido ouvida.
Como uma onça que defende seu filhote do predador, violenta e sem jeito, minha mãe abocanhou meu pescoço e me tirou da zona de perigo maior. As marcas eram muitas e a soma de fotografias de fatos no tempo se faziam incontáveis. Rejeitei toques formais, toques de amor, toques de desejo (correspondido) e até toque materno, eu sentia doer a cada contato realizado. Dor imensa essa que me proporcionou lágrimas de desconforto e angústia toda vez que eu rejeitava o amor por suspeitar de tudo e todos. 
Gélida e dura eu me tornei, sorria sim e me alegrava, mas como esquecer as feridas ainda que elas estivessem tapadas? Dói. Sempre doeu. Eu me sinto ainda da mesma forma que sempre me senti ao revisitar essas fotografias na memória, eu me sinto culpada da violência que sofri. Sempre busquei não chamar atenção, porque fui ensinada que esse era meu papel enquanto mulher e se algo acontecesse, a culpa era minha por não ter me portado como mandam as regras. Mesmo assim, MESMO ASSIM, aqueles olhares continuavam me perfurando a pele e me invadindo, o que eu estava fazendo de errado? Eu existia, era isso. Que desgraça ser mulher!
Faz tanto tempo desde o primeiro assédio e isso ainda acontece, os olhares, as palavras... Tudo continua recente porque não deixou de existir. Não sei bem o que mudou em mim, colocar em palavras me coloca em um lugar novo, o lugar de vítima, esse lugar que nunca deixei de ocupar mas que não me reconhecia nele. Agora eu consigo dizer, consigo escrever. Continua doendo, mas saber que agora consigo chamar tudo que sofri de violência e reconhecer no meu corpo um lugar de morada e não de sacrilégio, me possibilita amar e receber amor. 
Reconheço meus limites, me respeito, me amo como sou e nada me tira mais isso. Vejo nas outras, de forma resignada, essa dor. Estamos dizendo baixo, alto, em movimento, nos escritos, nas imagens estáticas ou não, em atos sutis ou mais estrondosos, o que não escolhemos não dizer, mas que fomos forçadas. Estamos falando de violência, estamos expondo nossas feridas, estamos nos despindo. 
Esse relato é uma partilha, é um pedido. Mulheres, dispam-se. 

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