domingo, 21 de outubro de 2018

Dente de ninguém

No meu pré molar inferior do lado direito habita uma cárie. Já fazem três anos. Ela agora atinge a raiz do dente, confirmado no primeiro e último raio X da arcada que pude tirar. Dia desses enquanto eu fazia a higiene bucal, esbarrei na parte interna do dente e isso me gerou uma dor horrível, nada comparada a qualquer dor que já senti. Meu dente parece estar sendo arrancado diretamente da parte mais funda e isso me causa uma dor latejante que emplaca toda minha cabeça.
Em uma ida ao hospital universitário da UFRJ numa consulta combinada com uma aluna de odontologia que precisava de pacientes para sua tarefa em disciplina, um professor do curso de odonto me questionou por que eu havia deixado meu dente ficar dessa maneira. Aquele gancho sugador estava alocado na minha boca e eu não pude responder a pergunta, mas pensando bem, naquele dia eu não tinha mesmo muito o que responder. Depois da pergunta pensei ainda mais sobre minhas condições, ou melhor, sobre minha saúde bucal que agora constatava as minhas condições.
Amanhã estou pretendendo tentar um atendimento de emergência na Clínica da Família onde tenho cadastro, estou já preparando um discurso comovente para tentar que esse dente seja retirado logo e caso esse outro médico me questione (tomara que antes do sugador) sobre os motivos pelos quais eu deixei meu dente ficar desse jeito, eu vou responder que infelizmente eu vivo em um país com uma enfermidade mal tratada. Ou melhor, várias. Que para existir aqui, a gente aprende a se acostumar e se acostumando aprende a estender os prazos até não cumpri-los, a arrancar o que pode fazer falta ao corpo mas que já chegou em um estado deplorável não por falta de tentativas em melhorar, mas por ter que lidar com o descaso de algum lado. O "você não está tão mal, toma esse remedinho e volta pra casa" ou "o médico da emergência foi embora" ou achar que votar num candidato que garante saúde para todos me garante saúde porque faço parte do todo. Qualquer lugar é difícil, principalmente o lugar da dor, mas a gente sempre arruma um jeito de sobreviver mais um dia com metade resistindo e a outra matade caída. Como está o meu dente.
Talvez ele não entenda nada, talvez eu só realmente abra a boca na intenção de remover esse dente. Talvez a gente não se encontre amanhã e a extração acabe ocorrendo por acidente. A culpa não é minha, nem dele, nem do meu dente. A culpa não é de ninguém. A culpa é de ninguéns.

> pra dialogar: https://theintercept.com/2019/05/13/desigualdade-no-brasil-dentes/?fbclid=IwAR3Vh3AthF6a_bidkISmyxIv7eKWNeuEdCCGjbReIkw25R8Nbw2P635zXNs

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