Primeiro, eu agradeço a visita com um "que bom que você veio" meio receoso e meio formal, depois eu te peço pra entrar e sentar-se. Eu fico de pé uns instantes, penso em permanecer assim, depois concluo que pode não ser favorável ao olho-no-olho. Dessa vez, você veio me ouvir antes de falar. Seus olhos se mantém fixos em mim, atentos, sedentos, precisos. As palavras se perderam dentro e você não está afim de procurá-las por conta própria, parece querer ajuda, parece querer de mim o cuidado que você não costuma ter com elas, as palavras.
Eu estou soando frio nas mãos, me sinto feliz ao mesmo tempo que sinto algumas vozes me atravessarem sugerindo ações não muito amigáveis. E eu começo a falar expondo justo essas ações, já que a intenção é não sofrer só, mas é também de não carregar ninguém para o sofrimento que eu estou tentando evitar. Essas palavras saem com força, com intensidade capaz de quebrar um muro - e elas quebram. Você continua me olhando como se estivesse assistindo a um filme, muito atenta aos detalhes, esperando o momento de acolhimento mas sabendo entender todo esse peso necessário inicial. Eu não posso esconder tudo que senti, as vontades que quase viraram ações e por ultimo, como eu contornei tudo isso para chegar a um possível caminho de resolução. Um fato sobre mim: Eu caminho para a resolução.
Parece que estou te descrevendo uma equação complicada. Uso até a minha parede e uma caneta para me auxiliar, anoto algumas palavras e traço linhas entre umas e outras. Eu ensaiei muito tudo isso, mas nada se compara a verdade adquirida da reflexão sobre as experiências que só podem ser expressas no momento da partilha. Você veio buscar a verdade. E ela, ao contrário do que se pensa, não é tão florida assim. Aliás, é. Só que antes precisou passar por muitos processos, inclusive o de morte. Mais do que dar peso a morte, eu gosto de dar a ela a importância de vida.
Lavo o rosto, a nuca e as mãos antes de ir para o segundo momento dessa fala. Você, abre a boca apenas para soltar o ar depois de inspirar fundo, enchendo os pulmões. Dessa vez você não está entediada, impaciente ou com raiva, você está só assimilando. Te olho por alguns instantes, me conecto. Volto a dizer, mas agora falo sobre responsabilidade. Eu amo essa palavra e de mim, ela soa como fruta madura pronta pra ser comida. Você assente e mais uma vez, eu me percebo sendo tomada por uma onda de felicidade, dessa vez uma onda mais tranquila.
Eu não peço desculpas, eu não peço abrigo, eu não peço oportunidade, eu não peço amor. Eu exijo compreensão. Meus chifres são grandes o suficiente pra me fazer ser temida de longe, mas tudo que eu desejo é que o medo se mantenha distante, não o amor. Não é possível evitar o mal de fora quando ele está dentro, da gente. Sorrio e comento que sempre caio nesses comentários de auto-ajuda meio cafonas, mas que considero necessários. Você sorri também, parece mais confortável e tudo mais assimilável.
Eu digo que não deixei de pensar em você um dia sequer, de maneiras variadas. Você acredita com os olhos, com a boca, com os joelhos, com o corpo todo, você acredita. Direciona seu olhar pra parede e repete a palavra "conexão" que em algum momento eu havia escrito. Concordo. Ficamos em silêncio enquanto nos olhamos e isso durou o tempo do passado e do futuro. Ficamos em um silêncio degustativo, prazeroso, entendido. Sem esperar nada, após uma longa piscada e enquanto expira você diz: "eu te amo". Sempre vamos estar perdidas, mas que bom que a gente se encontrou, eu respondo. Ou idem.
OBS: o título não é original, é de um espetáculo de dança cheio de contrapesos e quedas de uma companhia que eu curto muito.
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