não tenho mesmo um escrúpulo sequer e torço todos os dias para que esse caminho seja irreversível, que eu daqui a pouco não sinta mais essa angústia de estar em curso de vida que sinto desde o dia em que chorei e meu primeiro grito foi ouvido, bem como o primeiro de todos os outros seres, e percebi, na dor de respirar, que minha vida havia começado. a gente sente doer e depois dos canais abertos, sentimos que a dor só se alastra pro corpo todo, todo os dias. eu quero ter escrúpulos de menos pra nada pra ver se não me resta nenhuma centelha de esperança no outro porque a que tenho já morreu - bem mais que eu. eu não quero sentir mais dor, eu não quero mais ter fé. essa porra que me disse o menino descalço, preto, órfão e sem lar, dentro do ônibus, ainda ter em deus. deus? eu não quero ter escrúpulos, como deus, eu quero ser o ser inabalável, que está em todos os lugares, que está aqui sussurrando à emoção e consciência. eu não quero prestar. prestar porra nenhuma, nem pra porra nenhuma, quero não saber ouvir, ser inatingível. eu cada dia tenho menos escrúpulo e só penso em me bastar, isso é ser adulto, porra! isso é saber andar. eu agora não tenho escrúpulo o suficiente para me pedir cada vez menos quando uma tristeza de sentir sem querer vier me tomar. só quero que fique eu e ele, o amor. não, a falta de escrúpulo. eu não sei mais. não querer sentir é já sentir, com o peso de vida que é se carregar todos os dias. quero descarregar mas não se descarrega quem só transborda. o líquido é renovável, mas nunca deixa de cair pra fora do copo e cair pra dentro em ordens opostas e complementares. eu vivo pra não querer sentir, porque dói. dói de prazer e dor, porque não querer sentir já é sentir e sentir não é querer, sentir é querer demais, sentir não é querer, querer é não sentir, não é querer sentir, é sentir não querer, não querer sentir é não sentir querer. é sentir o escrúpulo ir embora de tanto querer. as passagens de ar abertas, o corpo sempre tomado, o copo transbordando, o menino acreditando, os olhos em chamas, querer fogo, deus, em polo oposto complementar. era pra ser um texto de ódio, porra! era pra ser sobre querer não amar. dói, mas adulto reclama. é pra doer, é pra transbordar.
[transbordar eu não quero eu não quero prestar eu não quero querer eu não quero não querer é foda sentir é foda nascer. tô nascendo a 23 anos, quando vai parar doer/nascer?]
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