terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Enquanto subia

Desceu as escadas do ônibus lotado e sentiu-se aliviada por estar fora da lata, daquela lata cheia de atuns apertadinhos. Queria chegar, mas ainda teria de enfrentar uma ladeira antes de abrir as portas de casa e, enfim, descansar.
Passou por uma escadinha que ligava à porta de um local fechado, que nunca teve certeza, mas achava ser uma oficina de carros ou algo parecido. Lembrava que quando pequena vinha correndo, subia as escadas até chegar no topo e ficava apoiada na grade, achando o maior barato olhar lá de cima, achando a maior graça em repetir aquilo toda vez que passava por alí. Hoje, sua cabeça quase batia no lugar onde antes para ela era o topo. Também não via mais graça em subir escadas. 
Subiu mais, em passos arrastados, tentava se esforçar para ir mais rápido, mas o cansaço parecia pesar tanto sobre ela que suas pernas não lhe obedeciam. Atravessou a rua. Rua essa que fazia parte de uma encruzilhada, também a primeira rua que aprendeu a atravessar sozinha e desde sempre não sabia para onde olhar.
Agora a ladeira parecia um pouco mais íngreme, mais cansativa. Olhou para a arvorezinha, onde uma vez posou para uma foto. Na ocasião, ela estava florida, eram flores rosas, que combinavam com os detalhes de sua roupa. Agora estava seca. Talvez seja a estação ou talvez ela esteja morrendo por falta de cuidado, pensou, reparando que havia um pouco de lixo ao redor da arvorezinha. Lamentou por ela. Lamentou por si. Subir aquela ladeira não lhe doía tanto, em outros tempos, era divertido, era como atrevessar uma montanha. Subiria e desceria dez vezes por dia, se fosse preciso. Tirar fotos não era tão desgostoso, feio ou bonito não era o caso, tudo lhe parecia único.
Carregava hoje um peso antes desconhecido, o peso de ser grande, adulta. Hoje mais cética, com um dia mais curto, ela não se considerava triste, muito menos depressiva, mas se considerava menos feliz ou talvez... Era feliz de um outro modo, contido, talvez. Olhou adiante e viu o quanto daquela ladeira ainda teria de subir, olhou para trás e viu o quanto já havia subido. Olhou para a paisagem ao fundo, casinhas ao longe, pequenos pontos de luz, estrelinhas na paisagem urbana tão conhecida - um morro, uma favela. Agora faltava pouco pra chegar, a maior parte já havia percorrido. Encheu o peito de ar. Era outra agora, precisava seguir. E seguiu.

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