segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Segredos de consultório

Parou um instante e respirou fundo antes de bater à porta. Sabia que não precisava bater, mas quis que tudo corresse normalmente. Será que seria possível?

- Entre.
Obedeceu a voz. Uma voz que conhecia bem. Fechou a porta atrás de si e se direcionou ao centro do consultório. Olhou firme para o homem que estava de pé atrás de uma mesa, que ficava de frente a janelas de vidro que permitia ter uma vista privilegiada da cidade. Ele sorria. Um sorriso não-profissional, não-forçado. Ela não retribuiu, cortou aquela troca de olhares quando se encaminhou até o divã sem que ele pedisse. "Era para tudo correr de uma maneira normal", se repreendeu em pensamento.
Ele era alto, usava óculos, beirava os cinquenta. Os cabelos rareados nunca foram tocados por tintas, davam a ele um tom charmoso, junto com o cavanhaque desenhado. A postura o denunciava ainda que estivesse fora do consultório. Dizem que depois dos 30 as pessoas assumem a postura das profissões que escolheram para si, o Dr. Slloan agora compreendia porque até nos churrascos e passeios com amigos e familiares era chamado de doutor.
Ela não estava tão elegante como de costume. Nada que a deixasse menos bela. O semblante um tanto carregado, sério, resignado, sem um pingo de ânimo. Ela não costumava ser assim, mas naquele dia não conseguiu transparecer mais nada além da verdade que habitava dentro de si. Helena tinha quarenta e três, mas aparentava trinta e poucos.
O Dr. se sentou em uma cadeira proxima ao divã. Dispensou o bloco de anotações, os deixou em cima da mesinha, que ficava ao lado de sua cadeira. Achou que não seria necessário.
- Pegue o bloco. Terá muito que anotar. - ela disse enquanto se acomodava. Ele obedeceu, achando um pouco de graça, mas obedeceu.
- Vou lhe dizer o que me aflige, doutor. - Ela se precipitou e ele se assustou. A olhou confuso, esperando que ela continuasse. Não conseguiu dizer nada além de um "prossiga".
- Estou sofrendo de culpa. Consciência pesada. - Pareceu desviar os olhos para um ponto fixo qualquer na parede, mal piscava, mal respirava. Havia mergulhado nos mais profundos de seus pensamentos enquanto pensava em como começar a dizer. Dizer tudo.
O psicanalista fez sua primeira anotação. Não sabia que começaria tão rápido. Para quem não pretendia escrever nada... Ajeitou os óculos e se concentrou em ouvir e tentar entender. Era o que sabia fazer de melhor.
- Já faz um tempo que as coisas estão correndo perfeitamente. Como se imagina. Eu levo as crianças na escola, volto para casa para deixar tudo em ordem antes de partir para o trabalho. Os meus vestidos, meu atelier. - Ela sorriu, seus olhos expressaram um brilho. Por sua cabeça passavam imagens e coisas boas. - Amo meu trabalho, sempre o amei, mais ainda depois que conheci ele, o homem mais especial de minha vida. E pensar que ele foi à loja encomendar um vestido para sua noiva. - Riu - Nos apaixonamos, ele a deixou. Veja só como as coisas acontecem... E as vezes a gente pensa que casos de novelas são os mais incríveis!
Um silêncio pairou pelo consultório número 3. Ela girou lentamente a cabeça enquanto seu riso cessava e seu sorriso se desmanchava. Por alguns instantes fixou o olhar no homem sentado na poltrona negra, a sua esquerda. Ele cruzou as pernas e com um gesto pediu para que ela continuasse. Helena desviou os olhos, por cima do ombro do homem conseguia ver a cidade, os carros, a agitação.
- Vieram os filhos e toda a rotina de casa. - Continuou, com seriedade e calma na voz. Os olhos fixos lá fora, na cidade. Os pensamentos fixos na verdade. - Isso não me incomodava muito, mas senti que precisava de alguém para me ouvir. Umas amigas me disseram que um psicanalista seria uma boa ideia. Pensei bem e não precisei procurar muito. Um amigo de meu marido foi o primeiro nome que me veio a mente. O Dr. Carange era conhecido a anos, muito querido por ele e... Por mim.
O Dr. Pigarreou. Helena respirou fundo outras vez, voltou a cabeça para frente para um ponto qualquer.
- Eu ia todas as sextas as consultas. Falava amenidades, coisas sérias, segredos obscuros. - Continou - Ele me ouvia e sempre me dizia que os meus segredos permaneceriam trancados ali, não sairiam. Ele dizia isso porque, claro, como era muito amigo de meu marido, eu tive medo de algo ser contado a ele... - Fez uma pausa breve, para assimilar algumas coisas e continuou: - Com o tempo, passei a ter mais credibilidade no Dr. Carange. Tudo eu contava a ele e ao sair daquela sala, me sentia mais leve e tranquila porque sabia que nada sairia dela. Então, os dias foram se passando...
Fez uma nova pausa. Agora mais longa, como se tomasse coragem pra continuar.
- Eu continuava indo as consultas. Até que um dia, movida por uma loucura que eu creio nunca saber explicar, perguntei ao doutor se tudo ficaria mesmo trancado naquela sala. Ele me confirmou que sim. - Novamente uma pausa, Helena fechou os olhos antes de continuar.
- Começamos a ter um caso. Convenci ele de que isso também poderia permanecer ali, agora como segredo nosso.
O Doutor abriu a boca como se quisesse dizer algo, mas desistiu. Helena não notou. Em nenhum momento voltou a olhar para ele, estava perdida dentro de si mesma.
- Foram cinco anos. Por cinco anos, as sextas, depois mudamos para quartas, depois quintas. Nas reuniõezinhas com os amigos, éramos melhor amigo do marido e esposa do melhor amigo. Tudo isso por cinco anos. Sempre ali naquele consultório, fora dele nunca. Meu marido nunca pareceu desconfiar... - Helena respirou, balançou a cabeça. Parecia agora mais angustiada que nunca - Ele, meu marido, sempre foi maravilhoso comigo e com as crianças. Tudo perfeito, como se esperava. O senhor deve estar se perguntando porque então eu fiz isso, não é? E eu digo que não sei. Não sei. Não sei. Não sei! - alterou um pouco o tom de voz - Não havia amor, não. E quer uma verdade? Não havia amor por meu marido, nem por seu melhor amigo. A culpa veio, talvez, por conta das crianças, não sei... Estou perdida. Não sei o porquê de tanta coisa... Eu só senti que precisava contar.
Slloan assentiu, enquanto estava de cabeça curvada, fazendo suas anotações, pacientemente.
- Tudo começou a pesar... - continuou ela, agora com o tom de voz mais calmo e baixo, quase um sussurro - Não faz muito tempo. Deveria, mas não faz. Essa culpa ter vindo tarde, mas ter vindo deve ser algum sinal, de que tenho algum escrúpulo, ainda. - Uma lágrima, desceu do canto dos olhos. Helena a secou depressa. A seriedade voltou a dominá-la, voltara a se tornar a mesma mulher com o olhar resignado, o rosto sério e impenetrável que entrara por aquela porta. - Antes que eu chegue ao estado das explicações, das possíveis soluções, eu vou me retirar da sua presença, doutor.
O Doutor cessou as anotações, repousou o bloco e a caneta sobre a mesinha. Respirou fundo e se levantou ao mesmo tempo que Helena. Apertaram as mãos. Os olhares se cruzaram por uns instantes, ela disse:
- Obrigada, Doutor. Me ajudou muito.
- Por nada. É o meu trabalho. - Sorriu. Um sorriso profissional, forçado.
Ela saiu pela porta. O Dr. Se encaminhou até sua mesa, se sentou de frente para a enorme janela de vidro, com vista para a cidade. Demorou demasiado tempo para chamar o próximo paciente. "Tudo ficará aqui", cocluiu em pensamentos.
Do lado de fora, a secretária de Dr. Slloan abriu um largo sorriso ao ver Helena.
- Me desculpe o atrevimento, mas acho curioso a senhora marcar uma consulta com seu próprio marido. - Soltou um risinho e cochichou: - Ele pode fazer uma consulta mais íntima, todos os dias.
Helena abriu um sorriso amarelo.
- Achei melhor assim. O Doutor Roberto Slloan ou como preferir, meu marido, é um excelente profissional... - Helena dizia com o olhar vago, um tanto entristecido. A secretária não compreendia. - Ele ficará bem... Ficará bem... - Helena disse baixo, quase que para somente ela ouvir e abandonou a recepção, sem se despedir da secretária.

Duas horas depois, Helena foi encontrada morta em sua própria cozinha por um de seus filhos, Thiago, de dez anos. Segundo laudo, o motivo da morte teria sido overdose de remédios. Quanto a amizade dos dois psicanalistas, tudo se manteve da mesma forma. Os segredos foram mantidos em seus respectivos consultórios.


2 comentários:

  1. Que original, Thaina! Se inspirou no Allen totalmente!!! Goooooostei!

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  2. Gente, que texto bom. Valeu muito a pena ter lido esse texto até o fim, por mais que seja considerado "longo" pra blogs.
    Enfim, gosto de ler, tô aqui pra isso.
    Woddy ♥

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