sexta-feira, 15 de março de 2019

O que é pior que a fome?

Eu tô me perguntando, agora, perto das 20h30 com chuva caindo e frango descongelando pra preparar o jantar. Acho que vou colocar água no fogo pra fazer macarrão, já comi alguns biscoitos recheados e tô ouvindo bem lá no fundo uns gritos, dos vizinhos talvez. Tem gente aqui que adora brigar, gritar, dizer... Onde moro, mora bastante gente. Não passamos fome, que eu saiba.
Essa pergunta surgiu aqui, enquanto eu tô sentada de frente pro meu computador sabendo muito bem que tipo de angústia eu vou carregar na vida, a pergunta apareceu justo no momento em que eu retornei ao habito de me presentear com comida feita por mim, do meu tempero, a quantidade que eu puder e quiser comer. Eu amo comer, então por que não me perguntar sobre fome? 
Bem, o motivo até poderia ser só esse, mas não é... Eu acabei de buscar no google, mas nem adianta, notícias de suicídio nem sempre, ou melhor, quase nunca saem no jornal. É uma vergonha pra família, uma vergonha pra honra de quem se matou, uma exposição desnecessária de tragédia ou sei lá o que que mais escolhem pra justificar. Acontece que o suicídio é uma solução. A cada 45 minutos uma pessoa dá fim a própria vida, como apontam estudos. 
E não era sobre fome que eu ia falar? 
Não sei bem se na sua cabeça as coisas se cruzam, mas depois de encontrar uma amiga hoje, abraçá-la, trocar algumas palavras importantes e saber dessa notícia, fome e suicídio nunca mais vão deixar de se cruzar. Eu dizia a ela que essa semana voltamos as aulas sem cumprir o ritual da semana de integração (somos colegas de curso) e ela concordou, logo em seguida me trouxe a informação de que nem a festa mais tradicional da primeira semana de aula aconteceria. Antes que eu pudesse perguntar se era por causa da chuva, ela me disse que a causa era o suicídio de um aluno da universidade. 
As coisas estão mais próximas do começo que nunca, acredite. Eu vou chegar na fome, ela nunca deixou de existir.
Ela me disse, no meio do relato, que o rapaz, antes de jogar-se do prédio havia gritado "eu tô com fome!" e bem, eu disse que as coisas iriam se cruzar. Entende agora quando dizem "é preciso ter estômago pra isso"? Porque, bem, é preciso ter estômago pra comer a comida que comemos. É uma lógica sistemática absurda que faz com que os donos da produção tirem de nós a fome para nos fazer viver para saciá-la. É absurdo viver sem fome, é absurdo viver com fome. Nós não temos mais o necessário para nos saciarmos, se é que já tivemos. Bem, eu acredito que já tivemos, mesmo que num passado futuro distante. 
Eu não sei de que fome aquele rapaz estava falando, mas fome não tem uma definição muita clara, ela tem uma definição escura. A fome é o nome do planeta onde vivo, quem disse isso foi Deus. Para mim, que busco tanto a sinceridade cruel das palavras, a fome está aqui e pra mim, que fico. O rapaz, cujo espírito agora voa para longe daqui, procurou saciar a angústia mais primordial que nos manteve vivos, a maioria e suicidas, outros. A pergunta pra expandir a questão imposta no título talvez fosse "o que estou fazendo pra saciar minha fome?", porque nós, só nós, sabemos o que nos angustia na busca de ter o que comer. 
Esse texto não se ocupa de ser uma lição momentânea para estímulo de vida. Esse texto busca apenas dar voz, mesmo que através de um relato breve, a alguém que precisou ter sua angústia partilhada através de um grito que ecoa no ouvido daqueles que partilham da mesma falta, para todos aqueles que dormem com a falta, que alimentam a falta com a dor de não saber o que é viver saciado. Estamos vivendo para morrer de fome, talvez. Porque enquanto parte dos seres que sentem fome ainda estiverem sofrendo desse mal que é básico e inexistente para outras, nenhum de nós terá paz. 









Não sentir fome é pecado, viver com fome é o pecado de quem sente. 

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