A primeira vez que eu me queimei, eu tinha 4 anos de idade. Toda vez que me queimo, tento lembrar de como suportei aquela dor que certamente foi maior que a atual. Atual do momento atual da lembrança, no caso. Brincadeira de tempo mesmo. Brincadeira com fogo. Naquele caso, com água fervendo. Doeu, eu gritei, me acudiram, fui carregada no colo pela rua até entrar em um carro e chegar ao hospital. Lá, enquanto retiravam minha pele morta, eu ria. Ria de achar graça, do mesmo jeito que rio do meu desespero em não saber o que fazer quando algo me queima por dentro, de não saber o que fazer da minha própria vida, as vezes, do meu drama. Ajuda achar graça, ajuda a aliviar a dor - logo cedo eu descobri isso, logo cedo eu incorporei. Se estou viva aqui, agora, é porque acho graça mesmo quando não paro de arder.
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