eu me lembro da sensação de sufocar com o meu silêncio toda vez que meu peito queima e comprime. meus ossos parecem diminuir de tamanho ou se atraírem para junto um dos outros, pra comprimir a falta do que já não tem: a palavra. eu me sentia inoperante, quebrada em plena consciência, uma maquina sem serventia, porque se eu não podia dizer o que precisava ser dito, eu não tinha lugar nesse mundo. a palavra conquista lugares, já diziam que a boca leva à roma. a boca sendo uma parte do corpo só cabe na frase porque ela, nesse caso, funciona como uma ferramenta de liberação de palavra. pelo cu, fezes, pela boca, palavra. e eu, em silêncio. a mudez do outro lado da linha esperava, os olhos fixos em mim esperavam, a flecha posta no ar esperava e eu corria com o peito apertado dentro de mim pra buscar o sentido de precisar dizer e a urgência de precisar dizer. em algum momento a palavra precisa ser trabalhada no corpo e aprendendo a adiar o que dizer, eu aprendi a correr atrás dela, a cavar fundo em sua busca, a sonhar com ela, a lê-la obsessivamente nos muros. a palavra arde pra mim em um lugar onde, pra ela existir, ela precisa ter sido encontrada no meu corpo. e eu vivo isso, esse sufocamento que não passa, que só me realiza no compromisso da palavra, de descobrir, de dizer, de apreendê-la. a minha palavra é silêncio e eu sigo aprendendo com ela para que um dia ela seja só corpo, para que ela seja só palavra o que a palavra é no corpo. é uma meta.
- espero viver dias de silêncio, de meta.
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