Bem, não sei se posso bem chamar aquele amontoado de coisas no canto da parede, intocáveis por alguns dias (andei observando), de lixo. Moro em um lugar onde o lixo pode ser tido como pertence pessoal e o pertence pessoal pode ser tido como lixo. Acredito que em alguns lugares isso aconteça, em outros não; fica bem decidido e entendido o que é lixo e o que não é. Pois é, antes disso provavelmente eu sabia o que era Vogue, mas a revista só ficou registrada em minha memória quando uma colega do ensino médio, mas precisamente do 3º ano, me disse que havia encontrado cerca de 50 revistas Vogue's no lixo. Não sabia bem o que isso mudaria na minha vida, mas fiquei espantada quando ela contou, mais ainda porque ela pegou todas e levou para casa. Ela morava perto da escola, que ficava no Centro - do Rio - e eu morava um tanto longe; se fosse eu que tivesse achado aquelas 50 revistas eu penaria um pouquinho mais, naquela época eu pegava o 355 cheio - no ponto final, mas cheio - e encarava toda uma Av. Brasil de estresses. Eu não poderia pagar nem uma, que dirá 50 revistas daquela. As poses, as marcas, as cores, a textura da página, a grossura, tudo parece ser um mar de devaneios luxuosos, algo que me agrada aos olhos e me causa certo incômodo - por isso copio as poses. Não sei bem se ao fazer isso na frente do espelho me sinto mais bonita ou mais patética, mas é interessante. A magreza realmente parece proporcional às paginas da Vogue. Enfim, o ano da dita-cuja é 2014 e eu a achei no refeitório, no já mencionado amontoado, a capa é da Gisele com um gato branco. Parece um desejo bobo ou sei lá o que, mas o que é achar uma Vogue no lixo pra você? Em mim ainda paira aquela sensação de "então, é isso...?" e folheando as páginas noto que tudo ali está para vender, mas eu não estou para comprar. Nem a revista comprei e isso sim parece fazer sentido, como o outro punhado de objetos tidos como lixo que guardo aqui comigo. A Vogue é lixo. O lixo é de vestir, de comer, de calçar, de ligar, de abraçar. O lixo é tudo isso que a gente espera que as coisas não se tornem, mas elas já nascem pra ser. Eu não cato lixo, eu cato oportunidades de vir-a-ser o que já se é, eu cato porque o verbo reflete o que eu sou. LIXOCATASER. +

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