sexta-feira, 30 de março de 2018

Caminhada de fragilidade


fragilidade
  1. substantivo feminino
    qualidade de frágil.

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Durou pouco menos de 30 minutos e, inicialmente, não pretendia que fosse uma caminhada. 
Com dores no corpo e entendendo que o mesmo precisava de sol para se recuperar de problemas de saúde, resolvi descer até o pátio da Residência onde vivo (dentro da Ilha), ao final da tarde, para recebê-lo - o sol. Parece um relato e é. Relatos geram uma lacuna que deve ser preenchida pelo  tempo - para mim, funciona assim. 
Os bancos de concreto estavam quentes, claro, me deitei sobre o banco onde mais incidia sol. Costas no concreto, peito pra cima. Eu estava de amarelo. Antes de deitar, um amigo me avistou de costas e me chamou docemente, elogiou minha silhueta e me disse que foi bom eu ter emagrecido. Fiquei constrangida sem saber direito se dizia à ele que a perda de peso se deve também ao fato d'eu estar doente do intestino a alguns dias ou agradecia somente. Na dúvida, eu mencionei o problema de intestino. Ele não foi o primeiro a elogiar. Curioso é que me sinto pálida, fraca, não-saudável e não sei exatamente como receber elogios sobre meu corpo agora, afinal, todo ele está implicado com essa interferência intestinal que ainda busco saber a causa e cuidar. 
De volta ao relato solitário, olhava para o céu bem azul e tentava me lembrar da explicação que obtive de um professor na escola a partir da pergunta "por que o céu é azul?", que não foi feita por mim, claro, eu morria de vergonha de levantar a voz, me pronunciar. Não recordei muito bem e resolvi admirar, pensar nos oceanos e mares e seus tons similares ou diferenciados. Olhei para as folhas que também compunham a paisagem e pensei que ficar um tempo distante de aparelhos eletrônicos nos faz ver melhor. Isso é claro. 
O sol estava baixando e eu queria aproveitá-lo (olho pela  janela agora, ele ainda não se foi), me levantei decidida a caminhar pela Ilha. Pensava em não ir muito longe, olhei para o caminho e alguns apontamentos - poucos - me faziam pensar em voltar ao banco e alí ficar. Uma amiga me chamou, nos cumprimentamos e eu comuniquei à ela minha decisão; agora que havia saído de mim em palavras, eu iria, eu já tinha dito. Dentro do período de aproximadamente três anos e meio que habito esse lugar, fiz apenas duas ou três caminhadas à esmo, sem pretensão de chegar a algum lugar. Essa seria a terceira ou quarta, embora eu acredite que não passe de duas, mesmo. Fui.
Andei em busca do claro, da luz e logo depois de alguns passos, encontrei à minha direita uma pedra boa para repousar. A pedra ficava encostada em uma árvore, que junto de outras, cercava um enorme campo verde onde outras árvores no meio estavam dispostas. Lembrei-me da vez que pisei pela primeira vez naquele campo junto de um amigo e um cachorro latiu muito para nós. Tremi dos pés a cabeça, como sempre acontece quando cachorros latem em minha direção ou para mim. Olhei para os lados, nenhum cão por perto. Perto de onde estava havia uma pista, onde passavam carros. Me certifiquei em ficar olhando somente para o lado oposto à ela, para que os carros que passassem por mim não achassem que meu repouso na pedra tinha outra intenção. 
O campo era lindo, mas eu não me sentia segura. Por nada me sentia segura. Segurei em insegurança uma pedra pequena digna de ser jogada em emergências e percebi que eu já esperava por tudo de ruim que podia me acontecer. A pedra já havia sido arremessada em meu imaginário com algumas hipóteses e eu tinha medo. O sol continuava ali e eu estava debaixo dele, mas a luz emitida só era capaz de ressaltar ainda mais os traços que me fazem vulnerável: meu short curto e minha blusa justa com um singelo decote. A noite, a minha presença gera dúvida. Não nos animais-cães, mas nos homens-cães, cujo faro é falho e a intenção é turva, desagradável. 
Eu sou mulher. 
E existe uma pedra muito dura que o discurso otimista e inclusivo é incapaz de fazer deixar de existir em tempos que correm: o medo. O estado de vulnerabilidade no qual me encontro desde meu nascimento não pode ser definido por minha personalidade nem minha genitália partida ao meio, mas sim pelos apelos dolorosos, assombrosos e desesperados, muitas vezes ameaçadores. Não penso em mudar meu estado de existência nem a forma como me identifico, ser mulher é um estado grandioso de fragilidade. Não de medo. 
Ser frágil é estar em constante mutação, é aguçar a percepção pela experiência, é entender as passagens de estado em consonância com o próprio corpo, mas se o direito ao próprio corpo é uma luta recente e, em muitos casos, para que eu o adquira eu precise deixar de ser (afinal, o que me garante "segurança" a noite seria o fato d'eu não parecer mulher), eu pergunto, e o direito à caminhar sem medo? Me perguntei após levantar da pedra em um salto, ouvindo latidos e observando um homem sem camisa se aproximar. Caminhei adiante, pensando em voltar. Voltei e não sabia bem para onde ir, eu não podia parecer perdida. Retornei para o caminho da pedra, passei por ela e segui adiante rumo a um ponto de ônibus afastado do campo, resistindo em receber o sol por mais um pouco de tempo. Um outro homem de sunga me perguntou as horas, disse que não tinha e segui sem olhar para trás. Logo o ônibus se aproximou e eu entrei. Alívio desesperador em estar dentro.
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Enquanto o alivio de mulheres for o desassossego desses corpos, nenhuma sociedade saberá que a fragilidade não é uma bandeira de redenção e sim uma força que vem de dentro. Escutar é pra dentro. Pra dentro. O medo não é de ninguém por direito.
..."o medo é o sentimento necessário para desferir qualquer reação" (link)


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