é Brasil, 2016, tempo de caos e luto. sempre habitamos falsos palacetes copiados das construções francesas depois que demoliram nossas ocas, o sempre é agora e tudo que vivemos é a perda. somos tudo isso, quer queiramos quer não. somos esse bolo solado que nunca deixou de ser farinha ruim, praqueles. vivemos um golpe e, mais uma vez, estamos demolindo. o espírito de porco do capitão do navio que primeiramente se espanta com a terra nova e depois se assusta porque o diferente parece ridículo, ele até riu dele, mas teve medo. eu to com medo pra caralho, medo de não ter ninguém comigo no front, medo de abandonar a oca ou ela demolir comigo dentro. e eu acredito mesmo - digo isso olhando pra baixo, pros lados, não pra cima - que vai continuar. o abismo vai nos fazer surtar porque parece que nunca, nunca chega o momento que batemos a cara no chão. esse momento nunca vai mesmo chegar, porque o final do abismo nem precisa existir pra gente desejar nunca ter pulado. o fim é quando já estivermos mortos e a gente não vai morrer assim, não. vou ver meu país afundar, pegar as trouxas e só desejar que tenha gente do meu lado nos esconderijos ou nos palanques. a gente vai precisar ser bem frágil, bem pequeno, bem vazio pra poder chegar lá, pra poder estar lá. a gente vai precisar abrir mão, a gente vai precisar aceitar, dizer sim, concordar, morder a isca e depois jogar, se jogar. o fim do abismo não vai chegar, porque não vamos morrer assim, mas é preciso acreditar ou a angústia da queda livre vai ser eterna e nada vai nos fazer morrer, parar ou voltar. aquela lágrima de dor, de desesperança, de tristeza vai brotar no canto dos olhos pra nos lembrar que nos fazemos de ísca mas somos mar. a gente precisa acreditar que pequenos assim, na ponta do anzol toda e qualquer coisa pode nos engolir. persistir na queda livre sabendo que pulamos não por não conseguir lidar com a vida, mas pra voar. e só finca os pés na terra e mergulha no ar sem asas, quem acredita que não é nada, ou quase nada, só poeira. a gente vai se encontrar, a gente vai conseguir dizer pro mendigo da Central e pro pai de família classe média da Barra que a dor não precisa ter esse caminho apertadinho e escuro, que somos - todos - poeira. nossos heróis abriram mão do pódio pra correr por um chão de terra batida lá do sertão, pra sorrir sem dente, pra acreditar no canto do galo e no batuque do terreiro e no sino da igrejinha. talvez eles sejam heróis não por escolha, por não saber mesmo. tudo que a gente precisa está aqui, debaixo da terra - é raiz. pra lá que a gente vai, de lá que a gente veio e lá a gente finca.
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| Jo Hein |
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