minha preta velha está alí, na beirada da cama me pedindo calma, dizendo que meu choro de alegria e dor faz crescer nas agulhas dela linhas coloridas pra continuar o bordado da minha história, ela diz pra mim que eu vim com um caminho traçado e que tudo que me afeta converge num plano maior; meu colo grande, minha alma de mãe, minha impulsividade precisa, meu cuidado, meus passos lentos, minha transparência, minha insistência, minha cabeça, minha dança, tudo ela cuidou pra abrir caminho. disse que eu tinha que ir descalça pra sentir a terra nos pés, sentir os pés na terra. a sabedoria que ela me deu, as vezes me assusta, mas a mim ela também transferiu a calma de quem caminha a passos lentos, de presença despercebida, corpo atento, que sempre chega mesmo que sem pressa, mas sabendo que não tem mais tempo a perder. ela viu todos os mais jovens irem embora pra outras terras descobrirem seus caminhos, abriu a porta de casa pra todos e só desejou que voltassem com boas notícias. ela vive praticamente só, praticando o ensinar e aprender com a vida e com as tarefas que repete religiosamente e nunca se cansa de ver o renovo de cada dia nelas. do nascer do sol e dele se pôr que ela mostra de onde vem a fé. ela é de paz, é senhora de colo, é de amor, consola, chora junto, está ali me esperando com as boas notícias, sempre, me fazendo respirar feliz por cada renovo.
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ResponderExcluirProcurando inspiração para continuar escrevendo, já que a cabeça anda tão cheia de muitos nadas dessa vida tosca e desanimada, acabo encontrando uma guria que, de tão transparente, acaba sendo original. Traduz o 'pensar sobre a vida' como em uma cena onde a criança vê o quadro na parede e não enxerga óleo sobre tela, mas desbrava a natureza donde está representada a paisagem. Tem essa sensibilidade de transmitir não só palavras, mas sentimentos, arranca sorrisos, lágrimas e caras de "ué?". Sem a corriqueira 'rasgação' de seda que, creio receber de todos os que leem sua escrita, meus parabéns. Espero que em alguns anos, meses talvez, em alguma livraria eu tropece em um "Entre Cruzamentos - O livro".
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