Foi uma cena dramática. Diferente da cena da novela, a minha não teve fundo musical de love by grace, mas teve choro. Me desesperei quando vi minha mãe cortar um tufo de cabelo bem no meio da minha cabeça. Eu sabia que alguma coisa muito séria estava acontecendo comigo naquele instante, mas... essa transformação era simbolizada pelo corte de cabelo? O cabelo era mesmo tão importante assim?
Hoje em dia quando conto parece exagero, ninguém acredita que passei anos da minha vida desviando os olhos dos espelhos. Colocava até um pano sobre eles quando estava sozinha, só para não correr o risco de olhá-los. Que imagem era aquela que eu via refletida? Eu precisava aceitar que era eu, mas de certo que ela não me agradava. Eu não me reconhecia naquele reflexo, na verdade nada se propagava além dele.
Foram 20 minutos de concordância, de um trabalho de entre cruzamentos que acontecia na minha cabeça enquanto rolava o filme Kbela. O meu filme tinha um roteiro parecido com o de muitas meninas, que não viam nada além de um reflexo resignado e descontente, que era forçado a viver preso ou frequentemente modificado. Sim, Kbelas, guardamos nos nossos couros cabeludos a memória da dor de um dia ter tentado ser quem não somos em prol de um padrão imposto que elimina cruelmente os traços que herdamos. Cresci negando minha imagem.
Meu cabelo, hoje em dia, conta uma história de renovo. Ele cresceu e com ele nasceu a aceitação, o prazer de me ver em reflexo no espelho e de refletir quem eu sou. O cabelo faz parte do corpo, tem memória, conta história. Cada fio, cada cacho, cada corte, cumprimento, somos isso, somos esse corpo que precisa ser aceito. E só reflete beleza quem se ama como é, não tem como ser diferente.
Fiquei feliz em ver uma produção tão bem feita que conta uma história que é de todas nós, mulheres que resistem e que são lindas como são, crespas, cabeludas, carecas, negras, fortes, enfim, rainhas. Sigamos deixando com que nossos cabelos contem nossas histórias de luta diária, refletindo belezas singularmente comuns.
Guardamos um tesouro em nossas cabeças, Kbelas!
depoimento que escrevi muito feliz depois de estar presente na noite de estréia do curta KBELA, produzido por Yasmin Thayná, uma garota crespa, da baixada, preta, com uma história parecida com a minha e de muitas outras garotas. Aqui a página.
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