terça-feira, 14 de abril de 2015

Paisagem do só

Dizem que, a medida que o tempo passa, nossa memória perde algumas lembranças e o que acontece ao revisitarmos essas lembranças seria uma mistura de imaginação e memória do que realmente aconteceu, uma espécie de reconstrução usando diferentes materiais. Mas a sensação que provoca a lembrança, ou vice versa, permanece.
Não lembro ao certo se o quadro na parede da minha antiga casa, com apenas um cômodo que vou chamar de sala, tinha neve ou mato verde. Eu lembro de mato, de colina, de vale, rio. Era hipnótico o efeito sobre mim e a sensação que me dava. Talvez eu tivesse 6 ou 7 anos.
Existia uma casa no alto da colina. E lembrando desse quadro enquanto escrevo, me recordo de outros, extremamente similares e que traziam sobre mim o mesmo efeito: de me transportar e me fazer sentir algo tão intenso que beira o indescritível.
Eu tinha uma pergunta: como alguém poderia morar ali só? No meio do "nada"?
Essa pergunta sugeria uma indignação, mas ao mesmo tempo que eu confirmava ser esse o sentimento, eu desejava aquilo um dia.
Solidão, era a palavra que eu usaria para aquela série de quadros de todos os tamanhos que tive durante anos em casa ou observei nas casas alheias e me transportavam pra uma paisagem interna de um desejo incompreendido.
Sempre tive a solidão comigo, sempre a olhei com apreço e temor, sempre a quis e a rejeitei. Me sinto parte daquela paisagem, antes em imaginação, hoje em desejo, interpretando-a de forma mais profunda, como resultado desse meu especular. Olhando para aquela paisagem, era pra mim que eu olhava.
Eu sou só. Vivo em uma casa sobre uma colina e que fique claro que os outros me atravessam, mas é lá que vivo, só, sem que saibam chegar ou sem que queiram - não peço. E as alegrias me competem sim, pois o meu prazer é observar, sentir, dialogar, aprender, amar e subir a colina para observar a paisagem da janela, ouvindo o barulho do vento, lembrando-me que a unica pessoa por quem tenho que procurar está comigo - eu.

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