A carta estaria entre seus pertences e eu jamais saberia se ela teria chegado as suas mãos ou, se aqueles papéis, onde ela foi misturada, teriam ido para o lixo ou para as mãos de algum ser aleatório que tomou aquela carta como se fosse para ele.
Eu escreveria teu nome? Na verdade, não sei.
A carta começaria com um pedido de desculpas, pela covardia de não dizer pessoalmente o que nela continha. Eu me demoraria algumas linhas nas desculpas, afinal é tosco mesmo, em pleno século XXI, no ano de 2014 beirando 2015 alguém escrever uma carta para falar de sentimentos e pior, uma carta sem pretensão alguma, no intuito apenas de desabafar. Já tomei nota, eu deveria ser mais otimista. Essas coisas eram bonitinhas na época da minha avó, hoje em dia existem outros meios, hoje em dia as pessoas andam mias confiantes (será?), o pensamento é outro. Chega de lamúria! Uma vez começada, de volta à carta. Eu não poderia parar nas desculpas.
Talvez eu pudesse escrever sobre como foi te ver pela primeira vez e o quanto isso mexeu comigo, mas pra falar a verdade... eu não lembro quando foi a primeira vez. Minha memória é uma droga. Eu poderia falar de todas as outras vezes, de como te olhar direta ou furtivamente me tira do eixo por alguns instantes e me coloca no mesmo de uma maneira violenta. Fico me perguntando como é possível esse fenômeno, mas talvez escrever desse jeito te assuste um pouco. Na verdade, tudo isso é assustador mesmo, até pra mim. Planejar uma carta nessa altura do campeonato, com o tempo de vida que tenho, para expor coisas tão abstratas e complexas, é mesmo prova desse meu desespero.
Acontece que eu gostaria que eu e você nos encontrássemos em um universo paralelo, que nesse universo a gente não precisasse falar e que uma dança fosse capaz de nos unir de uma maneira intesa. Esse universo seria diferente deste, porque acredito ser quase impossível permanecer-se encantada por alguém aqui. E eu gosto do encantamento, sabe, essa coisa de não ver defeitos nem qualidades, ver apenas alguém tão interessante a ponto de inspirar cartas em pleno século XXI no ano de 2014 beirando 2015.
Eu queria te escrever e queria que você soubesse que se tratava de mim, sem que eu precisasse dizer. Será que eu seria capaz de transmitir ondas eletro magnéticas a ponto de poupar as palavras e olhares indiscretos para demonstrar que é com você que eu quero fazer uma viagem pelo mundo, fazer planos solúveis, rir da vida e se arrepiar com coisas simples? Eu me sinto bem só, mas as vezes quero dividir algumas belezas com alguém e, ainda assim, quero continuar só. Você seria meu universo paralelo.
A carta terminaria sem que eu quisesse terminar, porque eu adoraria escrever páginas e páginas, adoraria imaginar sua expressão a cada frase, caso a carta fosse lida por você. Claro que nesse momento eu estaria me sentindo a maluca-mor, romântica alucinada, covardona de carteirinha, doida para rasgar as folhas de uma vez, sem pensar muito. Eu não iria assinar meu nome, nem escrever que te amo, porque eu sei lá se amo! Nada de finalizações melancólicas (tem como ser mais?), afinal tudo continua caminhando, assim como você, a passos cautelosos e calmos pelo corredor.
Também escrevi, no meu tempo, cartas de amor como as outras, ridículas
ResponderExcluirAs cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas
Quem me dera o tempo em que eu escrevia, sem dar por isso, cartas de amor ridículas
Afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas
http://letras.mus.br/maria-bethania/112663/
ResponderExcluirjun